Tuesday, 17 June 2014

Portugal-Alemanha à lupa: não houve ligação entre médios e avançados.


  • Nota Introdutória: A dinâmica de cada equipa ao longo do jogo pode ser captada em forma de rede. A rede é constituída por nós (jogadores posicionados aproximadamente como em campo) e ligações (setas) entre os nós. A análise da dinâmica da equipa implica que se incluam os jogadores substituídos (tempo de jogo à frente do nome), por isso mais de 11 jogadores podem fazer parte da rede. Do mesmo modo, jogadores que não tenham feito um mínimo de 3 passes podem não aparecer na rede e deste modo temos as ligações mais estáveis na dinâmica da equipa

  • Na figura “rede de ações” vemos as ações realizadas com a bola pelos jogadores (p.ex., passes, lançamentos, cortes de cabeça, cantos, cruzamentos). O tamanho dos nós (jogadores) é definido pelo número de passes de cada jogador. A largura das ligações aumenta em função do número de passes realizados entre dois jogadores. Os nós mais amarelos significam menor precisão nas ações, mais vermelho indica maior precisão.


  • Na rede de ações Portuguesa vemos que foram essencialmente os defesas laterais que assistiram os extremos, nomeadamente Coentrão a assistir Ronaldo (31 passes, predominantemente a meio do campo e portanto sem perigo). No geral, foi muito reduzido o fluxo de passes dos médios para os atacantes, incluindo Moutinho. Bruno Alves foi o jogador que mais passes efetuou (109 passes) revelando-se um jogador chave na fase inicial de construção do ataque de Portugal. Este aspecto pode-se ligar ao facto de Pepe e Pereira terem sido os jogadores com maior número de passes errados (28 e 30 respectivamente, ver figura “Passes errados e Perdas de bola” cujas setas apenas aparecem nos jogadores que realizaram mais de 3 destas ações). Estes aspectos indiciam uma ação da Alemanha a dificultar a construção do ataque de Portugal. A Alemanha evidencia mais jogadores com passes mais precisos, uma ligação mais forte entre defesas centrais, médios centro e extremo esquerdo, nomeadamente através de Kroos. Muller foi o jogador que mais ligações teve com jogadores diferentes, o que tornou a dinâmica do ataque da Alemanha mais imprevisível. Portugal tem muitas ligações fortes no sentido da própria baliza ou perpendicular ao sentido do ataque (Coentrão-Alves, Veloso-Coentrão, Moutinho-Pereira, Alves-Pepe, Nani-Moutinho) ao contrário da Alemanha que apresenta as suas ligações mais fortes no sentido do ataque. João Pereira e Miguel Veloso foram os jogadores que mais vezes perderam a bola para os Alemães. 

    A Alemanha tem uma densidade da rede de ações menor que a Portuguesa (0,665 e 0,697 respectivamente), mostrando ter realizado mais interações entre todos os jogadores. Todavia, uma vez que a rede de ações de Portugal se encontra pouco conectada entre os médios e os atacantes, e Portugal revelou mais perdas de bola e passes falhados que a Alemanha, isto revela uma dinâmica colectiva pouco eficaz. Por outro lado a Alemanha apresenta um padrão mais flexível, com trocas posicionais e linhas de passe menos previsíveis, passes mais precisos e com ações localizadas mais ao centro.


    Em termos gerais podemos ver que a intensidade de passes com sucesso ao longo do jogo foi superior na Alemanha, sobretudo no segundo tempo, onde marcou um golo aos 78’. Na primeira parte, a maior intensidade de passes oscilou entre Portugal e Alemanha, tendo Portugal sofrido 3 golos aos minutos 12, 32 e 45+1.

    Projecto do Laboratório de Perícia no Desporto da Faculdade de Motricidade Humana da Universidade de Lisboa em parceria com o Programa Doutoral em Ciências da Complexidade (ISCTE-IUL e FCUL).
    Coordenador:
    Duarte Araújo (FMH-UL)
    Equipa:
    Rui Lopes (ISCTE-IUL e IT-IUL)
    João Paulo Ramos (ISCTE-IUL)
    José Pedro Silva (FMH-UL)
    Carlos Manuel Silva (FMH-UL)

    Esta análise foi publicada no Público online de 17 de junho 2014:
    http://www.publico.pt/desporto/noticia/portugalalemanha-a-lupa-nao-houve-ligacao-entre-medios-e-avancados-1659023




5 comments:

Telmo Abreu Silva said...

Gostei da análise, só considero que seja relevante dividir o mapa de interações em diferentes períodos, relativos ao período entre substituições uma vez que a entrada de um jogador pode alterar a dinâmica da equipa e se estiverem todos os jogadores utilizados na rede, essa alteração da dinâmica pode ficar camuflada.

Gostava também de vos perguntar se as posições dos jogadores nessa rede é o resultado da média de ocupação dos jogadores no campo ou apenas uma representação para efeitos de melhor compreensão do gráfico? Porque essa ocupação média poderá ser relevante, seguindo a linha do que escrevi no primeiro parágrafo.

Bom trabalho e um abraço.

Carlos Humberto Almeida said...

Boa noite.

Aproveito o ensejo para congratular a equipa pela excelente análise. Os factos estão à vista e o resultado do jogo foi, infelizmente, pesado para a nossa seleção.

Sabemos que as dinâmicas coletivas são influenciadas por inúmeros fatores contextuais. Do ponto de vista científico, seria extremamente interessante (e penso que isso ainda não foi estudado a este nível de análise) perceber de que forma as ligações entre os elementos da equipa (qualitativa e quantitativamente) podem ser afetadas por variáveis como o resultado corrente do jogo, o local do jogo (casa vs. fora) ou, por exemplo, a qualidade da oposição.

Não passa de uma mera sugestão... :)

Mais uma vez: parabéns pelo excelente trabalho.

Cumprimentos,

CA

Anonymous said...

Parabéns, é o primeiro trabalho deste tipo que vejo efetuado por Portugueses. Não faço questão de ver publicado o meu comentário, queria apenas mostrar-vos outras perspetivas para melhorar o bom trabalho que fizeram.

Acredito que utilizaram para efetuar o trabalho dados FIFA - http://resources.fifa.com/mm/document/tournament/competition/02/37/37/74/eng_13_0616_ger-por_passingdistribution_neutral.pdf

Penso que a apresentação pode ser menos confusa para os leitores e na minha opinião mais objectiva se centrarem os dados na influencia de cada jogador em campo e no posicionamento médio de cada jogador (que em simultâneo gera um mais exato esquema tático). São fatores mais valorizados e de mais fácil compreensão pelo comum adepto, o que penso trará mais valia e reconhecimento ao vosso trabalho.

Aqui fica o exemplo:
https://docs.google.com/file/d/0B_WwLcfGuwxdZEhVVUpWNW5ZNkE/edit

Parabéns novamente.

Duarte Araújo said...

Agradeço os comentários e as reflexões que estes despoletam.
Telmo e Carlos, temos as redes antes e depois de cada golo, antes e depois de cada substituição. Esse material será publicado. Mas dada a celeridade em apresentar as análises mais importantes (O Jornal Público publica-as logo no dia a seguir ao jogo), e as limitações de espaço destes meios de comunicação, não avançámos pela sua pertinente sugestão. Temos formas de captar o "locus" das movimentações do jogador em campo, mas também por questões de tempo não o analisámos. Neste momento, usamos uma aproximação ao sistema de jogo que constatamos no próprio jogo. A dinâmica que aqui apresentamos é claramente resultante da qualidade da oposição. No próximo jogo a dinâmica será necessariamente outra. Os jogos do Mundial são todos fora, excepto para o Brasil!
Sobre a relação entre dinâmica da equipa e golos remeto para um nosso comentário que está publicado na página desta notícia no Público online. Todos os dados são nossos de modo a que possamos saber exactamente quando ocorreu cada evento (p.ex., figura 3), e de modo a sabermos exactamente a fiabilidade destes dados. Excelentes sugestões. Obrigado!

Carlos Humberto Almeida said...

Caro professor,

Quando referi utilizar o local do jogo como variável independente (casa vs. fora; neste caso: neutro, exceto Brasil), eu remeti essa sugestão para um outro estudo a realizar com outra amostra (e.g., jogos da UEFA Champions League).

O potencial das vossas variáveis dependentes é imenso. Estarei atento a novos desenvolvimentos.

Grato pelos esclarecimentos.

Cumprimentos,

Carlos H. Almeida